Jurisprudência sintética e hermenêutica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.19630053

Palavras-chave:

jurisprudência sintética, inteligência artificial, hermenêutica jurídica

Resumo

O artigo analisa os impactos da implementação da Inteligência Artificial Generativa (IAg) no Poder Judiciário brasileiro, contextualizando o cenário de alta litigiosidade e a busca por eficiência estatística. Investiga a transição da jurisprudência de fonte secundária para fonte primária e vinculante, ressaltando o papel criativo e humano do magistrado na concretização do Direito. Questiona-se a delegação de tarefas cognitivas a modelos de linguagem, o que pode resultar na consolidação de uma jurisprudência sintética, caracterizada por simulações sintáticas desprovidas de engajamento moral ou compreensão semântica real. São explorados riscos severos como as alucinações algorítmicas, a reprodução de vieses históricos e a alienação hermenêutica do julgador, que ocorre quando o magistrado substitui seu raciocínio crítico pela deferência cega a sistemas de caixa preta. Fundamentado na filosofia dialógica de Martin Buber e no procedimentalismo de Jürgen Habermas, o estudo sustenta que a automação desenfreada ameaça desumanizar a jurisdição, convertendo a relação ética "Eu-Tu" em uma relação instrumental "Isso-Eu". Conclui-se que a tecnologia deve ser uma ferramenta de apoio, mas não pode substituir a razão sensível e a responsabilidade ética do juiz, sob pena de comprometer a legitimidade democrática e a essência humanística do ato de julgar.

Biografia do Autor

  • Jeronymo Pedro Villas Boas, Tribunal de Justiça do Estado de Goiás

    Mestrado em Direito pela Universidade de Lisboa, UL, Portugal. Especialização em Direito Constitucional pela Universidade de Lisboa, UL, Portugal. Especialização em Direito Processual Penal pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Graduação em Direito pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (CEUB). Desembargador no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO). Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9519669745242401

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Publicado

17.04.2026

Como Citar

Villas Boas, J. P. (2026). Jurisprudência sintética e hermenêutica. Revista DirIA - Revista Direito E Inteligência Artificial, 1(1), 1-28. https://doi.org/10.5281/zenodo.19630053